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Passar fome não cria caráter: o perigo de romantizar o sofrimento infantil

Desconstrua a lógica de que a dor Neededria constrói adultos blindados e entenda por que o sofrimento na infância, na verdade, gera hipervigilância e não resiliência.

Júlia Mendes
Júlia MendesCoordenadora de Autoconhecimento7 min de leitura
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Se você cresceu ouvindo que "o que não mata fortalece" ou que apanhar na infância serviu para "te dar carácter", saiba que não está sozinho. O Brasil tem uma relação quase mórbida com a romantização da dor. Nós transformamos necessidades básicas negadas em virtudes e batemos no peito com orgulho de ter sobrevivido a cenários que, honestamente, nenhum ser humano, e muito menos uma criança em desenvolvimento, deveria ter que aguentar. O problema não é apenas a memória do evento, mas a narrativa que construímos em torno dele para não enlouquecer.

Dizer que passar por maus bocais te deixou mais forte é, muitas vezes, um mecanismo de defesa. Se aquilo foi ruim, mas "serviu para algo", então o sofrimento tem propósito e a dor becomes bearable. A realidade neurobiológica, porém, é bem menos poética. O que chamamos de força é, na grande maioria das vezes, uma dissociação emocional ou um estado de alerta permanente, hipervigilância, que custa caro à saúde mental e física.

A confusão entre sobrevivência e resiliência

Aqui temos o nó principal da questão. Resiliência é a capacidade de se recuperar após um choque, de voltar ao estado de equilíbrio, como uma mola. O que a maioria das pessoas chama de resiliência, fruto de uma infância difícil, é, na verdade, endurecimento. Imagine uma borracha que foi colocada no sol escaldante dia após dia. Ela não se torna mais resistente; ela fica ressecada, quebradiça e perde a elasticidade.

Quando você cresce em um ambiente onde o erro é punido com violência física ou humilhação verbal, seu cérebro não aprende a "lidar com frustrações". Ele aprende a antecipar o perigo. Isso não é força emocional; é estratégia de guerra. Você carrega para a vida adulta um sistema nervoso que reage a uma crítica leve do chefe como se fosse um urso prestes a atacar. O corpo entende que a segurança não existe, e vira um tique nervoso crônico. Aquela pessoa que "engole o choro" e vai trabalhar não está sendo forte; ela está represando um tsunami tóxico que, mais cedo ou mais tarde, vai transbordar em forma de ansiedade generalizada, depressão ou doenças autoimunes.

Para entender se o que você sente é gestão saudável ou apenas engolir sapos até morrer, é preciso desenvolver a habilidade de nomear exatamente o que se passa no seu corpo e mente. Sem essa granularidade emocional, continuamos chamando de "força" o que é apenas pânico disfarçado de controle.

"Passei fome e hoje sei o valor das coisas"

Outro clássico do jantar de domingo. A ideia de que a privação material gera sabedoria financeira é falaciosa. Na verdade, o que a escassez na infância gera é uma mentalidade de escassez na vida adulta. Você pode até guardar dinheiro, mas o faz com terror, não com prazer ou estratégia. Pessoas que passaram necessidade real nos primeiros sete anos de vida tendem a ter uma relação disfuncional com o consumo: ou são avaras compulsivas, com medo de gastar até R$ 10 num café, ou gastam compulsivamente para compensar a falta sentida na infância, comprando três tênis da Nike de uma só vez.

O desenvolvimento da criança exige segurança. O psicólogo Maslow já falava sobre isso décadas atrás, mas insistimos em ignorar. Uma criança que não sabe se terá almoço no dia seguinte não foca em "aprender o valor da moeda". Ela foca em sobreviver. O córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e pelo pensamento lógico, fica em segundo plano porque a amígdala está gritando que o céu vai cair. Adultos que viveram isso têm dificuldade crônica de planejamento de longo prazo não porque são irresponsáveis, mas porque seu sistema biológico foi programado para sobreviver ao agora urgente.

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Mito: O silêncio é sinal de educação e respeito

Quantas vezes você ouviu que "criança fala quando a boneca pisca"? O mito de que calar a boca diante de situações abusivas ou desrespeitosas cria alguém educado é, na verdade, uma fábrica de pessoas sem limites. O silêncio forçado não ensina respeito; ensina a anulação da própria vontade. Você cresce acreditando que suas necessidades são inconvenientes e que expressar desagrado é um ato de rebeldia perigoso.

Isso se traduz em relacionamentos onde o sujeito não consegue pedir um aumento, não consegue dizer "não" para amigos abusivos ou, pior, tolera parceiros desleais porque "poderia ser pior". Essa postura não tem nada a ver com bondade ou paciência. É o resultado de um treinamento, feito desde os cinco anos de idade, para não ser "pesado". O corpo aprendeu que a voz é uma ameaça à sobrevivência, então o aparelho vocal literalmente trava em momentos de conflito.

Se você tem dificuldade em identificar se sua percepção de desrespeito é real ou se você está "exagerando", sugiro ler sobre conflitar percepções e feedbacks externos. Frequentemente, quem foi silenciado perde a confiança na própria leitura de realidade.

Agrido porque amo: a distorção do afeto

Talvez o ponto mais perverso dessa romantização seja a crença de que a expressão física de raiva ou a imposição pela força são formas de amor. "Eu bato porque me importo", ou "falo assim para você não cair na vida". Isso cria um curto-circuito na mente infantil: dor = afeto. Não é surpresa nenhuma que tantos brasileiros, chegando à vida adulta, tenham dificuldades imensas em relacionamentos saudáveis. Se ninguém bate na gente, sentimos que não estão amando. Se ninguém grita, parece que a discussão não é séria.

O erro está em confundir intensidade com intimidade. Brigar feio, quebrar pratos ou fazer chantagem emocional não é paixão, é desregulação. Essa é uma herança tóxica que precisa ser quebrada conscientemente. Aceitar que você não precisa sofrer para provar que ama alguém, e que não precisa sofrer para ser amado, é um trabalho de desconstrução que pode levar anos, mas é libertador. Afinal, chorar quando estamos com raiva é uma resposta fisiológica comum a essa sobrecarga emocional mal gerida, e entender esse mecanismo de defesa é o primeiro passo para sair do ciclo da violência.

Não tem nada de nobre em ter levado a pior

Vamos acabar com a papagaiada de que precisamos agradecer aos nossos pais ou responsáveis por terem "feito o possível". Em muitos casos, o "possível" foi o mínimo exigido por lei ou menos que isso. Reconhecer que você foi negligenciado ou agredido não é um ato de ingratidão. É um ato de verdade e de cuidado com a criança que você foi.

Ao contrário do que diz o senso comum, olhar para trás e dizer "isso não estava certo" não te enfraquece. Pelo contrário, ao nomear o erro, você retira o poder que ele tem sobre você hoje. Você para de repetir o padrão com seus filhos, sobrinhos ou funcionários. Você percebe que aquela irritação explosiva que sente no trânsito não é "estresse da vida moderna", mas uma ferida aberta da infância que nunca recebeu pontos.

Para começar a desatar esses nós, uma prática recomendada, simples mas profunda, é reservar dez minutos do seu dia para escrever sem censura sobre o que te incomoda. O diário de 10 minutos ajuda a trazer à tona esses gatilhos ocultos que, enquanto permanecem no inconsciente, ditam sua vida sem você perceber.

A coragem de ser vulnerável, não blindado

Se esse texto pareceu duro, é porque a verdade dói. Dói admitir que poderíamos ter sido mais leves se não tivéssemos carregado o mundo nas costas aos dez anos. A novidade boa é que o cérebro é plástico até o fim. Você não está condenado a ser "forte" para sempre. Você pode escolher ser feliz, o que é muito mais corajoso. Ser feliz exige encarar a dor, processá-la e deixá-la ir, em vez de transformá-la em uma medalha no peito para mostrar aos outros.

Sua "força" não precisa ser uma muralha inexpugnável. Ela pode ser a capacidade de sentir medo, pedir ajuda e chorar quando precisa, sabendo que isso não vai te matar. Na verdade, é exatamente isso que te mantém humano. Parar de justificar o abuso como "treino para a vida" é a maior prova de maturidade que você pode oferecer a si mesmo em 2026. Não precisa ser forte; precisa ser inteiro.

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